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Diário de Bordo #015 – A espera por uma janela no Clima

Estamos nas Bahamas dentro do nosso veleiro de 43 pés, o que pode ser mais paradisíaco do que isso?

 

Quando as pessoas pensam nas Bahamas, as primeiras coisas que vêm à mente são suas  praias de areia branquinha com coqueiros e mar azul-turquesa.

No entanto nós estamos na Marina Bradford em Freeport na ilha de Grand Bahama nosso veleiro está no seco. Ele foi retirado da água no dia 5 de dezembro de 2020 um sábado. No dia 20 de dezembro nós finalmente chegamos na cidade e conseguimos embarcar.

 

Hoje é 16 de fevereiro e os dias começam a se arrastar, eles estão muito iguais todos os dias.

Acordar e ir rápido ao banheiro que fica relativamente longe. Como estamos no seco não se pode usar o banheiro do veleiro, é preciso caminhar um bocado antes de conseguir se aliviar.

Depois é ou fazer uma faxina, cozinhar, treinar algum nó diferente ou passar o tempo livre lendo um bom livro. A sim, não podemos esquecer uma controlada no aplicativo do clima para ver se a brecha que estamos aguardando se mostra.

Ainda não sei como é aguardar por uma janela de oportunidade quando se está na água, aguardar por essa janela no seco não tem a menor graça, o calor aumentando diariamente e nenhum local próximo onde possamos nos refrescar com algum mergulho. A marina em si não é bonita, muitos veleiros que aqui estão, ou estão apenas guardados por um longo período ou estão sendo consertados porque sofreram avarias, na maior parte das vezes por conta de furacões. Isso me faz lembrar que o que não falta por aqui são histórias de furacões, sempre que saímos com alguém e passamos pela cidade é inevitável ver os rastros do último furacão que passou por aqui e nesta hora as histórias de furacões rapidamente viram tema.

É muito interessante ver a solidariedade dos moradores da ilha, outro dia saímos em busca de um ônibus para ir a cidade fazer compras, logo uma moradora parou seu carro nos questionando onde iriamos e nos ofereceu uma carona dizendo que o ônibus não tinha horário certo e que atendia a poucos locais, em nosso retorno o mesmo voltou a acontecer, enquanto aguardávamos pacientemente o transporte outra pessoa parou o carro para novamente nos oferecer uma carona.

Queremos ir logo para a água mas, precisamos mesmo de uma janela de oportunidade no clima, torcer para que os ventos venham na direção correta, sempre que verificamos o tempo, ele muda e não se mostra favorável, as vezes pergunto se a tecnologia está aqui para nos ajudar ou se está aqui para atrapalhar,

como os velejadores de antigamente faziam?

Com certeza é melhor assim do que ter que abortar a saída, depois que colocarmos o veleiro na água, não teremos como voltar rapidamente e a baixo custo, em Freeport não há boas ancoragens, diferente de outras ilhas das Bahamas.

As perguntas que a mente começa a se fazer precisam estar sob controle, elas podem se tornar dissonantes rapidamente, principalmente se o tédio bater, precisa estar atento ou acaba virando motivo para discussão desnecessária e abrir espaço para o conflito que logo aparece.

Será que tudo isso vai valer a pena?

 

É difícil ouvir que nos próximos dias teremos uma oportunidade e depois ver que esta oportunidade está se esvaindo para dali a algum tempo ouvir que: hoje seria um bom dia para estar na água. Com certeza não queremos conflitos.

Sabemos que logo estaremos velejando e estes dias de tédio vão cair no esquecimento, a maior aprendizagem neste momento é saber que a incerteza do dia da partida faz parte da vida do velejador.

Segundo nosso capitão o mais complicado é administrar a ansiedade alheia, eu fiquei pensando que ele foi moderado porque a ansiedade própria já é bastante complicada para nós mas, vamos ter que aprender a lidar com a alheia também. Já estou lidando com as intermináveis perguntas de família e amigos que querem confirmações. Afinal de contas, quando é que vocês vão iniciar a travessia, eu quero muito ver vocês no Mar e por aí vai.

Sim, sim, nós também, tenha certeza disto.

A única resposta que temos é que quem determina de fato é o clima. Viver o presente administrando a ansiedade não apenas sua mas também a do outro é intenso e uma baita aprendizagem.

Já deixamos o veleiro pronto, temos comida, temos combustível, temos gás, temos água mas vamos completar no último minuto antes de partir, teremos 10 dias pela frente de muita atividade, e junto com estes 10 dias, teremos também 10 noites.

se tudo correr bem não teremos nenhuma parada. Isso é loucura?

Não sei, vamos ver, tomamos uma decisão, queremos viver no Mar em um veleiro, não estaremos constantemente em alto mar, a maior parte das vezes estaremos na costa bem próximo da praia, poderemos descer a qualquer momento e passear pela redondeza. Só sei que , tomamos esta decisão juntos, olhamos um para a cara do outro e nos perguntamos

Até quando seremos covardes

Juntos decidimos encarar o desafio, vamos viver no mar pelo tempo que for possível, estamos quase lá, falta muito pouco agora para que esta nossa decisão de um ano atrás se torne real. É claro que as vezes passa na mente o desejo de desistir mas, desistir sem nem ao menos tentar?

A propósito, a nossa janela de oportunidade está bem firme para o inicio da próxima semana.

Já deu até frio na barriga.

 

 

Até o Diário de Bordo #016

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One thought on “Diário de Bordo #015 – A espera por uma janela no Clima

  • 26 de fevereiro de 2021 em 3:34 AM
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    “Tudo vale a pena se a alma (sua visão/motivação) não é pequena”
    Frase atribuida a Fernando Pessoa.

    Achei engraçado voce dizer que pra passar o tempo vai treinando nós.
    De fato, fazer o nó certo é algo de extrema responsabilidade.

    Conheço alguns nós pra pesca e eles fazem a diferença entre pegar e voltar sem nada.

    Estamos ansiosos pra ver voces velejando, mas a prudência tem prioridade.

    Boa sorte e bom começo na vida de marujos.

    []s

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